#42 - Trauma
Passei uma vida tentando dar contorno a uma coisa que não sabia bem o quê. Passei também uma vida fugindo de algo que não entendia bem. Ao longo da vida tive uma sensação permanente de ser algo que estava bem na minha frente, de proporções avantajadas, mas um tanto turva, que não conseguia enxergar, tampouco nomear.
Sempre desconfiei que no fundo fosse uma pessoa complicada que sabe disfarçar bem. Aliás, sempre acreditei que sabia disfarçar bem. A extensão do que tentei disfarçar está me aparecendo somente agora. De toda forma, quando a desconfiança batia na porta, me comparava com as pessoas complicadas que conhecia e com quem convivia e pensava: ah, não sou tão complicada assim. Com os anos, fui desconfiando também dos laços insistentes e recorrentes com pessoas tão ou mais complicadas que eu, que manifestavam suas complicações cada qual à sua própria maneira.
Outro dia pensei: a maternidade é excelente para calibrar as fantasias. De repente, você conhece um nível de estresse que te lança tudo na cara: tudo o que não conhecia, tudo o que tentou esconder mal e porcamente, tudo que administrou com maestria durante a vida com uma fina camada de discrição e contenção, tudo que desconfiava como indigesto e putrefato sem sequer saber dar o nome.
Como toda mulher – apesar de ser o que chamam de “desfem” e muitas vezes me ver como andrógina; enfim, como uma pessoa que nasceu com útero e passou pela revolução hormonal da adolescência sendo vista como uma mulher, sofri graus menores – se assim é possível dizer – de abusos sexuais. Morria de medo de ser estuprada e consegui atravessar a vida sem sofrer esse nível de violência sexual.
Na época em que o Facebook foi inundado por relatos do #MeToo, me dei conta de que o primeiro abuso sexual que sofri foi por volta dos 4 ou 5 anos de idade por um médico amigo do meu pai. Me veio vividamente a lembrança de profunda confusão quando é permitido ao médico fechar a porta do meu quarto a fim de me examinar (sozinho) e quando então me examina, tirando minha calcinha e metendo o nariz nas minhas partes íntimas. Ainda assim: não via isso como um trauma. Tomei como um episódio como tantos outros em que meu corpo era invadido à minha revelia por diferentes homens: tios, primos, irmão, amigos, namorados, desconhecidos. Sempre sentia raiva, mas enquadrava como questões menores diante de algo muito mais terrível quanto por exemplo a penetração não consentida.
Sempre soube que o nível de violência física que sofria em casa não era, digamos, adequado, apesar de, nos anos 80, ser muito comum e aceitável a realidade de pais que batem em (ou, no caso, espancam) seus filhos a fim de “consertá-los” e “educá-los”. Do ambiente doméstico, a violência física e psicológica se estendia para a escola e a rua, quase naturalmente e sem grandes questões. Apanhava – e também batia – dos meninos da escola, ganhava apelidos humilhantes, era isolada como uma pessoa de poucos amigos (porque eu sentia raiva e tentava bater de volta?). E tudo isso vinha com um verniz de normalidade e cotidianidade. Quase um “eu que lute” avant la lettre.
Talvez pelo verniz, talvez pelo ar de abandono do assunto como algo muito menor de ser cuidado em casa e na escola, também nunca entendi esses episódios como uma violência suficiente que poderia ser nomeada como uma experiência de trauma.
No início da vida adulta, conheci a palavra bullying. De repente, se tornou um assunto relevante de ser tratado em voz alta, pelos pais, pelos educadores, pela escola, pela sociedade como um todo, com bandeira, ativismo e tudo. Para mim, já parecia um assunto longe, talvez soterrado – mas, sobretudo, um tema que não precisava ser revisitado. Talvez só etiquetado: “ah, sim, sei o que é o bullying, conheço na pele”. E isso ao mesmo tempo me desculpava de entrar na conversa. Não precisava engajar, nem debater ou me informar, pois já sabia do que se tratava. Como se ao simplesmente etiquetar já estivesse fazendo o trabalho de tratar, limpar e curar.
Da mesma forma, havia também um abuso psicológico implícito no ambiente doméstico que só consegui dar nome quando tive meu segundo relacionamento com um homem – ele, oito anos mais velho, eu, com 20 anos – e consegui então apontar a toxicidade e reconhecer a etiqueta “abuso psicológico”.
Da mesma forma que aconteceu com o bullying, foi um olhar retrospectivo esclarecedor. Diferentemente do bullying, consegui me demorar e investigar de forma mais séria com recursos terapêuticos. Entendi como eu também catava as tensões e dançava conforme a música, mesmo que sem perceber direito o que fazia. Afinal, eu havia sido treinada, frequentado essa escola por longos anos, sem saber. Mas, de novo, também olhei para trás e disse para mim mesma: nada grave a ponto de se associar à palavra trauma.
Quando abandonei a carreira acadêmica, à qual havia me dedicado por 15 anos, em troca de um emprego numa organização estadunidense sem fins lucrativos ligado a uma comunidade de yoga e seis meses depois tudo desabou com a publicização de denúncias muito antigas de abuso sexual e psicológico por parte das pessoas que formavam o coração dessa comunidade (da qual participei de longe mas intensamente por cerca de 11 anos) – eu vivi aquilo com um grande assombro. Foi bastante indigesto e assustador enxergar de tão perto o nível de violência a que o ser humano pode chegar no exercício de um poder de grande ramificações.
Apesar do assombro e do choque, aquilo não despertou em mim nenhuma resposta intensa ao estresse. Sim, aquilo era intensamente estressante para mim – por muitos motivos e muitas camadas. Era um estresse que também colocava no centro do furacão não só uma carreira à qual agora havia apostado todas as minhas fichas (a de gerente editorial) e meu meio de sustentação financeira (make a living é expressão excelente aqui), como também, colocava em xeque decisões que havia tomado nos últimos 7 ou 9 anos; e que haviam moldado a minha vida entre os 30 e os 40 anos. Poderia ter sido enlouquecedor. Devastador foi; desorientador, também. De toda forma, tudo o que me tomou foi um relacionamento amoroso. Levei uns 2 anos para sentir que havia passado pelo grosso da indigestão e recalibrado a rota da minha vida.
Aqui, sei que sobrevivi sem desorganizar por completo a minha psique porque entrei num processo terapêutico que pegou na minha mão e me permitiu sentir e olhar tudo. Com gentileza, sim, com gentileza, pouco a pouco, despacito.
E aqui também, mais uma vez, a palavra trauma me rondou como palavra conhecida que eu reservava para outras pessoas, sobretudo, para experiências mais intensas do que a minha, em especial experiências mais desorganizadoras. Se poderia apontar a palavra trauma, então, não havia sofrido um trauma. Só valeria se alguém me examinasse – talvez num contexto psiquiátrico? – e dissesse, com lamento e um diagnóstico preciso: “isso que você vive é uma reação típica de estresse pós-traumático”
Pode ser que esse diagnóstico nunca tenha vindo porque, afinal, eu sou a primeira pessoa a diminuir o impacto dos acontecimentos e de sua importância. Sou a primeira a dizer dos acontecimentos (quando ao menos digo sobre ele) como se não fosse nada sério ou grave: “ah sim, não foi fácil, mas olha como já tenho uma narrativa estruturada (fria e distanciada) sobre isso!”
Por fim, desde que passei pela experiência de parir outra pessoa e ser a responsável primária por sua sobrevivência, tudo isso que parecia frio, bem tabulado e minimamente reconhecido sobreveio como uma avalanche, como uma onda alta, forte, acachapante.
Eu, atordoada, entendi que estava à beira de ser a pior versão de mim. Contive a verborragia da pessoa mais chata que existe dentro de mim e deprimi. Mas, de novo, foi uma depressão levemente apontada e nomeada. Porque estava contida, mas também estava revoltada e sabendo nomear bem as coisas. Diagnostica ou não, amenizada ou não, eu sabia que estava à beira, esfolada, sem pele, num ponto que poderia ultrapassar e nunca mais voltar, que estava me segurando às unhas à beira de um precipício – que, sim, alívio, ao menos isso, eu conhecia bem.
Sobrevivi (sobrevivemos, eu e neném) e, então, veio o rescaldo mais difícil: conviver, reconhecer e lidar com reações instintivas, impulsivas e agressivas.
Diz-se com muita frequência que ter um filho te coloca em contato com as sombras da própria infância. Ao longo desse um ano e meio, tenho percebido a família como clãs com clusters temáticos. Sinto no corpo e na memória (que esse mesmo corpo carrega) que o tema da família em que nasci revolve em torno da violência, agressividade e abuso há algumas gerações; em graus que me parecem que vão se atenuando a cada coletivo de descendentes, mas ainda assim, está lá e bem vivo.
Meu corpo aprendeu a reagir aos diversos gatilhos que vêm a reboque desse tema. Toda vez que meu filho puxa meu cabelo, me belisca, me morde, joga a mamadeira na minha cara ou bate com a cabeça no meu nariz, um gatilho passa pelo meu corpo, tão rápido quanto uma corrente elétrica, e eu preciso conter quase que instantaneamente. O impulso da raiva fulminante é o primeiro a tomar conta do meu corpo inteiro. Algumas vezes, contenho mal e porcamente, desviando para outro objeto. Outras vezes, cerro os dentes. Outras ainda, perco as estribeiras.
Mas não é sempre assim: depende, óbvio, do nível de estresse de cada dia ou do acumulado da semana ou mês. Melhora quando descanso ou quando sinto menos pressão no dia a dia. De toda forma, é também verdade que a onda da raiva tem aos poucos diminuído de intensidade, não sem um trabalho hercúleo de reconhecer o rastro de tensão em que é construída e de destruição que deixa para trás.
Ainda que não tenha sofrido trauma maior ou de grandes proporções, para um corpo que foi espancado, espezinhado, debochado e invadido de diversas formas ao longo de toda uma vida, qualquer dedo no nariz de forma estabanada pode ser a gota d’água e um gatilho. É preciso treinar respirar fundo. Nem sempre salva. De toda forma, o imperativo de todos é gerenciar e regular a intensidade da pressão interna e externa, apostar na homeostase.
Não é nada fácil entrar em contato com essa energia da raiva, da violência e da agressividade. Durante a adolescência, aprendi a desviar a raiva física para palavras precisas, elaboradas e cortantes. Mas, durante os anos de yoga e meditação, fui tendo contato com esse hábito sombrio e tentando também contê-lo. A yoga e a meditação, contudo, não me ensinaram a sentir e a amenizar a raiva. Foi como colocar mais cera a fim de tampar algo em putrefação.
Como entendi outro dia, a maternidade despe suas fantasias e te coloca de frente com a realidade mais nua e crua da sua própria vida, em especial, sobre como foi sua infância, em termos de quantidade de amor, afetividade, acolhimento e apego seguro que recebeu (ou não). E nada, absolutamente nada, pode te preparar para conhecer a realidade do estresse do seu sistema nervoso quando algo desse tamanho te acomete assim sem contornos – e sem trégua.
Esses anos de maternidade têm me ensinado na pele que pessoas (mesmo que minimamente) traumatizadas são mesmo muito problemáticas. Sim, elas são complicadas. Elas têm reações exageradas em momentos inadequados. Nos momentos menos previsíveis, elas transbordam. A maior parte do tempo, parecem dóceis e plácidas. Até que algo alfinete um abscesso prestes a explodir. Eis um jorro purulento, difícil de testemunhar sem algum horror ou repulsa. É vergonhoso e também desolador. O sistema nervoso dessas pessoas pode até parecer bem regulado, mas se ele é colocado em contato com estresse intenso e prolongado, ele vai mostrar que, é, nem tudo são rosas. Regular a cada dia esse sistema nervoso a cada novo gatilho é tarefa nada simples, tampouco doce, dócil ou plácida.
PS. 1. Tropecei no seguinte trecho de Simone Weil, assim que terminei de editar esse texto.
I believe that in very important things, you don’t overcome obstacles. We stare at them, for as long as it takes, until, in the case where they proceed from powers of illusion, they disappear. (...) Obstacles are another matter altogether. If we try to cross them before they have disappeared, we run the risk of the compensation phenomena alluded to, I believe, in the Gospel passage about the man from whom one demon left and to whom seven demons then returned.1
Simone Weil, Waiting for God
PS. 2. Vira e mexe, sinto a necessidade de dizer de novo sobre a função desse espaço. Repetir para mim como forma de persistir, mas também para relembrar a quem está aqui que esse é um convite de elaboração de vida, como fazíamos na época analógica em que mandávamos cartas e tínhamos mais tempo de sentar no sofá sem sermos interrompidos por notificações e demandas por habitar outros espaços e tempos; enfim, quando não havia dispositivos de bolso de distração e desconexão em massa.
Então esse é também um convite para você me escrever de volta – da forma como preferir (te dou até meu endereço) – e me dizer como elabora o sentido da sua vida. Se algo do que disse faz sentido e reverbera.
PS 3. Demorei muito mais tempo para escrever a newsletter desta semana. Por isso, está saindo na segunda. Consegui compreender há poucos dias com que espírito gostaria que essas cartas fossem recebidas e, ao entender isso, estabeleci que meu dia e horário de postagem é domingo de manhã. Espero que faça sentido para você também. Se não, me conta aqui quando faz mais sentido. Aproveita e me conta o que mais tem feito sentido aqui.
Acredito que, em questões muito importantes, não se supera obstáculos. Nós os encaramos, pelo tempo que for necessário, até que, no caso de serem fruto do poder da ilusão, eles desapareçam. (...) Os obstáculos são outra questão completamente diferente. Se tentarmos ultrapassá-los antes que desapareçam, corremos o risco do fenômeno de compensação mencionado, creio eu, na passagem do Evangelho sobre o homem de quem saiu um demônio e a quem sete demônios retornaram.



